Estranho dia

Sobre este dia 12 de outubro de 2026.

Hoje o dia amanheceu estranho, diferente – com tudo o que era velho virando novo. De certo, só mesmo o cachorrinho, que ressoava um ronco fundo ao pé da cama. Não era hora pra ele.

Me vi então num lugar de onde saía um café, de onde se raspavam os pés das cadeiras no chão, que se reuniam, verdes e vintage, ao redor de uma mesa da mesma cor.

Sem nem mesmo caminhar, me vi entrar numa sala, de onde avistei o jornal colossal , desfolhado que só sobre o tapete peludo, caramelo.

Bom era só ficar por ali. Mas fui, só indo. E então, no quintal, pisei no piso quente, caquinhos vermelhos, mais tarde amarelos. Me surpreendi com as três torneiras altas, elegantes, perfiladas sob o barracão. Pra quê tudo isso mesmo?

A bicicleta, não sei se vermelha, não sei se amarela, repousava um pouco ao lado da videira. Frutos verdes se dependuravam pelo muro do vizinho: por que queriam ir pra lá?

Dali se via quase a casa toda, tudo através das suas amplas janelas e grades – verdes e de ferro.

No ponto mais largo do quintal que rodeava a casa, um degrau mais alto que tudo levava à porta estreita, de vidro, limpa como se fosse nova. Lá dentro, o quarto de taquinhos encerados, embalados em um perfume de amor. Era ali que se abriam as venezianas. Ali, por muitos anos foi só o quarto do avô (pouco tempo da avó, pelo que me lembro).

E sim, havia o avô, que desaparecia por um bom par de horas todas as manhãs, caminhando pelas ladeirinhas da vilinha ali perto, só pra conversar com as mulheres, rir dos meninos e cumprimentar os homens com seu chapéu. Eu não esqueço do que hoje nomeio de minha pequena grande maldade, que era rir dele, zombar dele, dizendo que eu o tinha visto na vila, passo apressado pelas ladeiras e escadas, quase a correr, conversando, ágil que nem ele só… Para quem andava arrastando os pezinhos pelo quintal e se dizia quase surdo, era um grande feito, sem dúvida!

Pobre do vô que balançava as mãozinhas pra mim dizendo “Ah!, menina!, toda vez que eu despertava antes dele só pra esconder a velha camisa, cor de vinho, que religiosamente acordava no varal, cada vez mais desbotada.

Hoje o dia amanheceu estranho, diferente, mas só porque, pela primeira vez desde aquele tempo, eu vi que eu ainda não era grande o suficiente. Não sei se era sonho, mas se fosse, eu queria vivê-lo como verdade. E então colocaria nos pés o meu conga azul, esticaria minha meia branca até bem acima dos joelhos, quase rasgando-as; ajeitaria a sainha xadrez vermelha – vestida à revelia dos conselhos de minha mãe, que dizia que elas não eram para andar de bicicleta – não porque eram novas, mas porque me faziam ver as calcinhas.

E então abriria os portões que fechavam a casa, para que eu pudesse dar voltas e voltas nela, até não poder mais, num looping perfeito e ininterrupto de 360 graus, entrando e saindo, virando as curvas, dando rasantes nos muros de chapisco, derrapando nas retas, acelerando entre os canteiros, ralando os joelhos nas quinas, desequilibrando entre a roseira do jardim e a seringueira – mal sabia ela que iria morrer antes que avançasse completamente pela sala onde estava o tapete.

Hoje o dia amanheceu estranho, diferente, cheio de coisas de que eu não lembrava.

Hoje o dia amanheceu estranho, diferente, com tudo o que era velho virando novo. De certo, só mesmo o cachorrinho, que ressoava um ronco fundo ao pé da cama. Era um cachorro pequeno, muito mais pequeno do que este que tenho hoje.

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