
Hoje é dia das mães e se analiso bem, ser mãe talvez tenha sido o melhor projeto que eu tenha realizado na vida.
Não me entenda mal. Não é que eu me ache a melhor mãe do mundo e coisa e tal, mas, certamente, esse é o projeto ao qual mais me dediquei, algo que fiz com o corpo e a alma – e de onde resultaram os melhores frutos.
Neste segundo domingo do mês de maio, dia das mães, me pego a pensar nisso: de que não pode, de jeito nenhum, deixar de haver um lugar para onde possam ir todas as mães, principalmente as de ontem, ou seja, as mães das mães.
Não é pouco dizer, então, que acho uma pena que, por algum motivo, a gente nunca perceba o caminho no momento mesmo em que o estamos percorrendo. Eu sei, eu sei, talvez esteja aí a grandeza das coisas, mas olha, seria muito bom que, a certo ponto da vida, a gente pudesse parar à beira da estrada e tomar fôlego, só para ter o tempo de mirar à direita e depois à esquerda, dando assim de cara pergunta: para onde vão as mães de todas as mães?
Bem, se hoje eu tivesse a resposta – e mais: se eu conseguisse chegar a este lugar onde estão as mães das mães – então eu procuraria a minha e lhe faria uma pergunta bem filosófica:
“Mãe, o quanto do teu projeto ficou em mim?”
Acho quase impossível que ela respondesse a essa pergunta. Primeiro porque “a gente nunca se dá conta do caminho no momento mesmo em que o percorremos”. Segundo, porque, convenhamos, isso lá seria coisa para se perguntar para uma mãe, justamente agora, quando ela foi para ficar num lugar onde ficam as mães das mães?
Ao cabo de algum tempo, entendi, então, que, pelo menos por ora, deveria guardar a pergunta para mim.
E foi assim que, a despeito de toda a minha e certeza e domínio, numa tarde de maio, pouco antes dos 84, ela decidiu partir por uma estrada que (ainda) não era a minha. Assim ela partiu, silenciosa. Era-me dada, então, assim, a lição mais pesada e complexa da vida; chegada no momento exato, para que eu pudesse lembrar de que tudo que importa se faz na vagareza e no silêncio, pois que, antes do fim, o plic-plic da agulha insiste em costurar com linhas transparentes cada um dos trapos da nossa existência, para no momento seguinte, no completo desaviso, jogar sobre nós um manto grosso, pesado e sufocante; só para nos lembrar da nossa humana insignificância.
Foi costureira. Daquelas de vestidos de noiva em camadas feito coco, e roupas de
revista. Uma artista por detrás dos artistas. Era só o que eu pensava saber até aqueles dias. Filhos desatentos, deixamo-nos ninar pela nossa doce ignorância: cremos que nossos pais são eternos e, na nossa ingenuidade, nem imaginamos que este lugar para onde, um dia, vão as mães das mães.
Eu deveria saber. Deveria ter aprendido a lição mais cedo. Afinal, já acontecera antes. De toda forma, e em ambos os casos, foi o tempo que curou. Sempre é ele, o tempo que cura. Não por milagre, entretanto, pois isso depende muito do cuidado que dispensamos às memórias.
Hoje, neste dia de maio, quatro memórias se sentam ao meu lado na poeirenta estrada da minha vida:
A primeira:
“Esta sua professora de arte é muito boa… Cada coisa que ela ensina… Mas vem cá, eu ensino a chulear, pregar o botão, fazer o ponto de cruz… Pensando bem, vai, filha, deixa que eu termino isto, vai..”
A segunda:
“Olha, filha, comprei miçangas de pérola… E um pouco de tule… Recorto aqui, costuro ali… Quer algum detalhe na manga? Podemos tingir o tecido de um rosa bem clarinho… Um rosa chá! Conhece?”
A terceira:
“Dezessete anos, filha… Que tal este laço rosa na cintura, e esta tiara de florezinhas coloridas? Ficará linda no baile… Quer o vestido mais comprido?”
A quarta:
“ Dona Pilar vai fazer seu vestido. Nem Clodovil, nem Ésper… Vamos de Dona Pilar
mesmo (risos)… Dizem que a mãe não pode fazer o vestido de noiva da filha… Fiz todos os da minha família. Três irmãs. Menos o meu… O seu… Há de ter tule, seda, cetim no lugar de charmeuse… O chiffon é bem caro… Acho que não vai dar…”.
É isso então?
Quatro lembranças de você?
Claro que não:
“Vou comprar um tecido prateado e fazer um macacão de manga longa para a festa à fantasia na escolinha… Você gosta de agasalhá-lo, eu sei… Dará um lindo astronauta..”.
“Agora só falta o chapéu de caipira… Já fiz a camisa de flanela, assim você pode usar em outras ocasiões. Aí a gente remenda com retalhos as perninhas da calça, alinhavando o colorido! Ah, sobrou bastante tecido… Talvez faça algo com ele…”.
“Pronto! Terminei o chapeuzinho. Verde oliva, de feltro. Completa-se com a peninha,
verde mais clara. Meu Peter Pan!”.
84 anos. Há pelo menos dez não costurava mais… Os olhos não ajudavam. Não há
óculos que bastem quando se escancaram as janelas que levam ao poente da vida. Mas até deste período, às vezes, também marco encontros com variadas memórias:
“Filha, enfia as linhas na agulha pra mim?”
“Menino… Por que fez isto? Cortou o cabelo do David! Pobrezinho do boneco de pano que a vovó fez para você! ”
“Será que aquela fantasia de astronauta não serve pra este aqui também? Posso fazer uns ajustes…”.
E muito, muito tempo depois dela ter-se ido pela estrada da vida, lá está o lençol de
flanela para o filho do meio; retalho perfeito da camisa felpuda usada há pelo menos vinte anos na festa junina.
Os dicionários dizem que “parte do segredo da longevidade está na alimentação e nos hábitos”. Com certeza. Também ela cuidava da alimentação e dos hábitos – dos dela, da família e de quem mais se juntasse por ali. Além dos tecidos e linhas, famosos eram também seus bolinhos de bacalhau e sua feijoada. Quando a vista cansou, aquelas horas diante da máquina de costura – sua paixão – certamente foram substituídas pelas da cozinha.
Entretanto, o segredo de sua longevidade não estava apenas nisto. Residia na sua
razão de viver, no motivo pelo qual ela acordava todos os dias, arrastando as chinelas quase silenciosas.
Por algum motivo, como sempre ocorre, a gente nunca percebe o caminho quando o
estamos percorrendo. É preciso que, a certo ponto, se pare à beira da estrada poeirenta,
tome-se fôlego, mire-se à direita e depois à esquerda; numa tentativa desolada de
posicionamento, de pergunta. Muitas vezes, entretanto, não é ela que vem; ao contrário: é a
resposta que cai inesperadamente dos céus, como se uma vida inteira não tivesse sido
suficiente para conhecê-la:
Você é o ponto de cruz, a miçanga de pérola, o laço rosa amarrado na cintura, a noiva,
o astronauta e o caipira. O Peter Pan e o descabelado David. Os fiapos de linha no chão. O dedo espetado na roda de fiar que, ao contrário do conto de fadas , deu-lhe vida longa e farta;
longeva, vagarosa e intensa.
Recortes do teu projeto que ficou em mim.