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Enquanto descia as escadas, o sangue esfriava e, antes mesmo de alcançar o último lance, já tinha secado as lágrimas. Antes mesmo de entrar na sala, antes mesmo que a respiração se ajustasse – que pena! – a racionalidade já estava dentro de mim – inteira e fria. “Onde sento?”, me perguntei.
A sala estava vazia e escolhi me sentar diante de um computador bem no fundo. “Quero privacidade”, pensei em voz alta. Tive um pouco de raiva desse pensamento, achei incoerente. Afinal, há pouco tinha feito o que sei fazer de melhor: me virar do avesso diante das pessoas. Fiquei meio com raiva de mim, dessa minha mania de deixar mostrar minha alma pros outros; nem sempre se entende isso. Mas raiva maior mesmo tive foi dessa minha racionalidade repentina, inteira e fria; a que esfriou meu sangue, secou minhas lágrimas e me fez escolher aquele que julguei ser o melhor lugar da sala.
Felizmente, me lembrei de Pessoa – e de quanto ele foi genial com os seus heterônimos. Pode soar ridículo, mas eu também queria ter heterônimos pra sair por aí, sem correr o risco das pessoas se confundirem comigo. Lembrei de Álvaro de Campos em Pessoa: “Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas…” Concordo: “As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas”.
Não sei dizer se aquela minha racionalidade repentina dificultou ou não que eu escrevesse uma carta de amor. Mas foi Pessoa que me incentivou a mandar às favas a racionalidade, a pegar minha porção ridícula de amor e começar a escrever este texto:
Hoje mais cedo, enquanto dirigia para o trabalho, retomei uma ideia antiga que, vez ou outra me vem à cabeça: observar as pessoas na rua. Está certo que esse é um exercício difícil pra quem está dirigindo um carro, perigoso até – e melhor seria se eu o fizesse enquanto apenas caminhasse, mas, “fazer o quê?” E então, na medida do possível, me ocupei do jogo costumeiro: olhar as pessoas na rua, na faixa de pedestres, na praça. Não é trabalho fácil não, porque tudo precisa ser muito rápido… Digo com orgulho que a maioria das pessoas não consegue fazer isso, porque em poucos segundos, você precisa descolar aquela pessoa que está diante de você daquele tempo e lugar e levá-la ao melhor tempo do seu passado – e só então pensar: como teria sido essa pessoa na infância? Que tipo de sonhos teria tido?
Esse exercício sempre me surpreende, me salva do tédio, do trânsito, da ansiedade, da solidão, da nostalgia. É como se me dessem, de graça, um segundo precioso, um lapso de tempo, feito só e somente pra ver as botas largas do varredor da rua, o arco das sobrancelhas do homem que estica o braço pra pedir a moeda, o anel na mão do homem e a fumaça do cigarro se lançando através do vidro à metade, o moço e o ruivo dos cabelos se esgueirando por entre os carros, a mulher que puxa pela guia os cachorros (conto seis), o azul dos olhos do homem das balinhas, a latinha de cerveja colada na mão enrugada da velha… Uma vez vi um sorriso inesquecível, se um dia vê-lo de novo, saberei de quem é… Na minha cabeça escrevo biografias como se fossem cartas ridículas de amor, tentando adivinhar se, de fato, esses adultos que vejo nas ruas, heterônimos perdidos de aí, se lembrariam eles mesmos das crianças que foram um dia…
Sempre e sempre, depois deste jogo, peço perdão para todos, por apenas lhes reservar este mísero segundo para pensar neles como crianças. Sempre e sempre penso em meus filhos adultos e em todas as vezes que, mesmo tendo à disposição todos os segundos das nossas vidas, não os olhei o suficiente como crianças por um ridículo segundo – e não os incentivei a serem igualmente ridículos, a viverem mais em nome do amor do que da racionalidade.
Tudo teria se dado apenas desse jeito hoje, comigo pensando nessas coisas, imaginando a versão criança daquelas pessoas na rua, e me convencendo de que é realmente uma pena que eu não possa ser ridícula em tempo integral.
Tudo teria sido assim, mas não foi. É que, uma vez mais, ganhei a chance de ser ridícula, ter mais um delírio amoroso – um pouco diferente daquele vivido sozinha mais cedo, nas ruas, nos faróis, nas praças, com desconhecidos – mas ainda assim um delírio amoroso.
Eram quase oito e eu já estava atrasada de uns três ou quatro minutos. Percorri o longo corredor e parei. Do alto da escada, pude ver os meninos jogando lá embaixo, na quadra. No meio deles, o garoto novo… Confesso que com certa melancolia, pensei que talvez ele tivesse tudo pra ser, no futuro, um daqueles adultos que, sem saber, participaria daquele meu jogo anônimo e ridículo de misericórdia – escolhido pra ter o seu único segundo de delírio amoroso.
Pensei nisso, aquilo que seria o maior do maior dos meus ridículos na vida, não fosse o que vi depois: os meninos não foram só meninos. Por algum motivo, eles entenderam que o menino novo precisava viver o seu segundo ali mesmo, naquela hora, enquanto ainda era um menino. Entenderam que o corpo do menino um dia iria crescer, mas que seu coração seria o de um eterno menino… E foi aí que resolveram lhe dizer, sem palavras, o quanto o amavam sem quase nem conhecê-lo, o quanto apreciavam poder lhe dar afeto e alimentar seus sonhos naquele agora… E assim colocaram-no na cara do gol, acertaram a bola, acenaram para o goleiro e pediram para o menino mirar e chutar. Os gritos de gol encheram a quadra, os abraços esquentaram as almas. O menino mais alto circundou a quadra, menino novo nos ombros. O menino sonhando ainda menino.
Foi isso que esquentou o meu sangue, descompassou meu coração, me virou do avesso diante das pessoas, me fez chorar e chorar. Me fez escrever este texto, que poderia ter ser lido como uma carta de amor, totalmente ridícula, como tem que ser.