
“– Não. Fica pra outra vez. – Olhou para os meninos sorrindo
– Foi até melhor assim. Porque o dinheiro que eu tinha… – e se calou de repente ante o fato que ia contar.
E pensou que talvez tivesse sido uma lição de Deus, um aviso, e que tivesse feito uma
coisa malfeita.Seu olhar foi tão estranho, que os meninos se aproximam um passo.
Olhavam para o padre sem compreender. Pedro Bala franzia testa como quando
tinha um problema a resolver, o Professor tentou falar. Mas, João Grande
compreendeu tudo, apesar de ser o mais burro de todos:
– Era da igreja, padre? – e bateu na boca com raiva de si mesmo.
Esse é o trecho que mais me impressiona na história que Jorge Amado nos conta em Capitães da Areia. Não que não haja outros, são muitos. É que o personagem, mais que a cena em si, me impressiona. É que neste trecho, a gente dá de cara com a humanidade dele.
O dicionário define humaninade como a essência do ser humano, suas características, virtudes e fragilidades. Da minha parte, suponho que, embora a humanidade seja uma prerrogativa para as pessoas boas, vez ou outra ela também se acomoda sobre os ombros das pessoas más. E é justamente esta imprevisibibidade e incerteza que assegura a humanidade a todos os seres humanos.
A verdade é que sempre penso nisso, na humanidade como um dom com asas. É algo do tipo que fica planando por aí, sem pousar em definitivo em alguém. Ela apenas plana nos ares, dando rasantes daqui e dali. Ela não pousa, ela toca. Não precisa ser pessoa rica, poderosa, – sei lá -, generosa, honesta, justa, para sentir de perto o hálito da humanidade, porque o dom da humanidade é totalmente aleatório.
Fosse essa a cena da criança ladrona que roubava a sacristia – e não do mocinho -, pensariam muitos que não haveria nem sinal de humanidade ou que ela teria apenas planado pelos arredores – sem tocar. Afinal, o furto, sozinho, teria pintado de desonra e abandono a tela inteirinha, com as únicas cores possíveis de se pintar aquelas crianças.
Mas não. Jorge Amado pinta a cena com o furto do padre. O homem criado honrado e respeitoso, quase um santo, que, no seu momento de fragilidade e vergonha, viola a ética, a moral, a própria virtude; destitui-se do dom da humanidade, não como se se desfizesse de um véu como todos os outros, mas como quem rasgasse a própria carne.
Este trecho do Capitães da Areia, mais especialmente ainda a frase final, traz essa tal humanidade da qual lhes falei antes:
– Era da igreja, padre? – e bateu na boca com raiva de si mesmo.
É essa a tal da humanidade que, como um dom, plana no céu, riscando o azul até tocar um homem.
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