
Faz um tempo que tenho me sentido assim: voltando.
Voltar tem sido esquisito, afinal, me desacostumei a isso, pois o meu ofício tem sido sempre ir, seguir, perseguir, prosseguir – quando muito retomar.
Voltar deveria ser mais fácil agora que já conheci a ida do caminho, mas não, e acho mesmo que essa coisa de sempre ir, desacostuma a gente de voltar. Além do quê, acredite, voltar é bem mais difícil.
É que para voltar, é preciso parar, dar volta e meia e assumir o medo de ir a lugar algum.
Parar assusta. Parar é solitário. É trabalhoso. Pede da gente uma coragem que não se tem (ou diferente daquela que se tinha quando a gente apenas ia).
O tempo, esse também, não ajuda: o relógio bate lento – e incomoda o tic – tac descompassado que marca o segundo exato em que o passo deveria ter sido dado, mas não foi.
Voltar incomoda e perturba, talvez porque implique em um contramovimento, um constrangimento silencioso e comprido; um não prosseguir, um titubear; um cambalear vergonhoso; um mero e estúpido parar. Voltar pede o inédito: o usar o tempo sem pressa – aquele que até outro dia mesmo a gente nem via passar.
Voltar dói – e é um doer profundo e solitário, porque a gente em geral volta pras entranhas, pra dentro do coração, do corpo, da mente, das veias, do próprio cansaço, da efemeridade da memória, da alegria e do sonho. E se enche de nostalgia, porque voltar tem destas coisas: dali sempre dá ver a paisagem verde passar pela janela do trem.