BEFANA

ITALIANIDADE PAULISTANA

Imagem – https://italinha.com.br/dia-da-befana/

Há uns quinze dias antes do Natal estive com os meus italianos. E talvez aqui caiba uma breve explicação para quem ainda não os conhece: chamo de meus italianos os que estão há mais de 1 ou 2 anos em São Paulo e, claro, se diferenciam em muito dos italianos Italianos que já conheço – embora, verdade seja dita, quando essas duas categorias de italianos se misturam, os italianos e os Italianos, a gente não consegue diferenciar quem é quem.

De toda forma, só disse isso mesmo para reforçar a ideia de que não estava com um Italiano qualquer – e não me entenda mal com isso -, mas sim com os meus italianos, aqueles já bastante integrados, familiarizados à paulistanidade da minha pessoa…

O certo é que, com os meus italianos posso conversar de tudo, ser autêntica, sentir-me livre para expor minhas paulistanidades, inclusive aquelas que poderiam gerar algum horror entre os italianos Italianos, pois que os meus respeitam boa parte das minhas esquisitices no tocante à italianidade; ao ponto da gente até conseguir rir juntos de algum crime culinário que eu cometa no almoço ou eventualmente faça com que deixem passar batido alguns dos meus  delitos (gramaticais ou prosódicos) já nos primeiros diálogos da manhã… São paulistanidades de que eles podem usufruir como bons italianos que são.

Foi então que, dada à proximidade com o Natal e, graças a essa minha autenticidade paulistana quase nunca reprimida, pensei em falar dela. A Befana.

Aproveito e já faço um parêntese: se você  que me lê nunca ouviu falar da Befana, cabe lhe dar uma breve explicação – ou mais: seu perfil físico e psicológico: ela é uma mulher muito, muito velha que aparece nos céus da Itália dias depois do Natal… Ela é  meio desleixada nas roupas e voa em uma vassoura tão velha quanto ela… Se parece muito com uma bruxa (só que simpática)  e,  embora só dê o ar da graça na noite entre 5 e 6 de janeiro, a noite da Epifania, ela fica de olho no comportamento das crianças o ano todo… Diz a lenda que ela está assim, assim; combinada com os pais das crianças, pois que esses penduram meias na lareira para, nessa noite específica, serem preenchidas pela própria Befana… Com balas, frutas secas, carvão ou alho; a depender de como as crianças se comportaram durante o ano… Huumm… Fecha parêntese…

Dito isso, resolvi fazer este comentário a um dos meus italianos:

Acho curioso essa Befana… Diferente do Papai Noel… Sinto que ambos estão ligados ao perdão, mas a mim parece que o Papai Noel está mais próximo do desejo de  redenção… Parece que há uma  incondicionalidade, uma inevitabilidade de ser perdoado…  Já o perdão que vem da  Befana me parece que vem como uma advertência à pessoa, do tipo “olha, já que você foi bonzinho ou boazinha, então receberá bons presentes, mas, sei não… Será que foi? Avaliemos bem…”

Ele me olhou com uma cara meio assustada, mas me respondeu com toda a sensatez do mundo, como um bom filósofo:

A Itália é o país da estratificação: tiramissu, lasagna, parmegianna…  E também da estratificação cultural dos sentidos. A gente tem o Baboo Natale… Mas a gente tem também a Befana, que é uma estratificação dos reis magos… Quem duvida que o lastro deixado pela vassorinha da simpática velhinha não seja uma referência ao lastro das estrelas  dos reizinhos no céu?

Assim disse ele, para quem a Befana foi uma experiência de infância…

Aliás, ele também disse:

Pelo que eu me lembro da minha infância, o fenômeno Befana é baseado banalmente no ato moralizador, ou seja: existe o mal, existe o bem e você tem que se comportar bem, e se você não se comportar bem, tem uma punição. Todo ato tem uma consequência.

Hoje me parece que não se vê a aparição da Befana no sentido mais amplo da brincadeira…  Porque para mim também foi brincadeira. Sabe por quê? Eu nunca vi meu irmão receber carvão. Nunca. Mas a Befana existia como brincadeira pedagógica. Era uma espécie de leve ameaça, de leve medo, de leve temor que isso pudesse acontecer… O que era inclusive divertido, porque nada cria adrenalina como o temor. Acho, então que hoje em dia nós empobrecemos, justamente por causa do prejuízo que o universo ético sofreu… Nós empobrecemos também desta possibilidade de nos divertirmos  com os axiomas do bem…

Hoje em dia, a vulnerabilidade ética passa a ser uma fraqueza pedagógica…

E ele completou:

Se funcionou para mim? Funcionou. 

Quanto a mim, só digo que essas são as italianidades de que posso usufruir como boa paulistana que sou.

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