30 de dezembro de 2025

Pensei em escrever um editorial, como aqueles de jornal e revista, sabe? Um tipo de artigo do tipo jornalístico, em que se discute uma questão. se apresenta um ponto de vista. No caso de uma revista, por exemplo, o editorial representa a opinião da instituição Mas não. Optei por um gênero do qual eu gosto muito – de ler e de escrever: o ensaio.
Você deve estar se perguntando. mas, afinal de contas, qual a diferença entre um editorial e um ensaio? Bem, de verdade, as definições são bem parecidas, apenas ressaltando que um é mais impessoal do que o outro…
Gosto do ensaio, particularmente porque aprendi a gostar de Montaigne – o pai deste gênero literário e de escrita. . Foi filósofo renascentista francês, humanista e cético. Um cara cuja escrita certamente seria cancelada nos dias atuais…
Ele me foi apresentado em uma aula sobre ética, numa sala cuja parede era ilustrada por um único slide de Power point : a figura de Chronos. Coerente, eu diria.
Comprei o livro e pude degustar uma leitura curiosíssima, polêmica, às vezes engraçada, muitas vezes de mal gosto. Enfim, ele, Montaigne, foi o pai do ensaio. Ele escrevia sem enciclopédias, sem internet, sem I.A. Escrevia maravilhas, absurdos e alucinações. E dizia: escrevo para que, depois que eu não for mais deste mundo, as pessoas que estiveram comigo possam conhecer a minha ética. É isso.
Essa ideia, em particular, faz muito sentido para mim. É na escrita que eu me revelo – ou não.
A escolha do ensaio para escrever e falar sobre literatura não foi por acaso, como podem ver. E acho que é um excelente gênero para revelar meus pensamentos sobre Literatura.
Não vou me estender aqui, por isso já vou deixar clara a importância do gênero ensaio para estudar Literatura: é um gênero livre, que permite que eu me coloque com autenticidade diante daquilo que leio. Sou pessoa que entende que o estudo da Literatura deveria ser aleatório, como são os livros que estão na minha estante… Compro um livro porque quero. Não o leio por questões cronológicas, acadêmicas. Minhas motivações são outras. Sei pouco. Vou viver pouco, ou por tempo insuficiente para conhecer todos os personagens, todos os lugares, todas as mazelas, todas as maravilhas deste mundo.
Organizo minha estante como eu quero. A minha capacidade investigativa se amplia deste ponto, desta escolha. Não me envergonho de fazer associações bobas, incompletas, de precisar consultar a internet para saber o ano de publicação de um livro, ou a qual movimento literário um determinado autor pertence; se havia uma crise no mundo, uma peste, uma ilusão, um descontentamento, uma tragédia…
O personagem move a história. Tudo decorre dele.
Por isso o ensaio. Ele me dá a liberdade e a alegria de ser ignorante por conta própria.
De ser o palhaço no centro do palco, no início do espetáculo.
https://jornal.usp.br/cultura/montaigne-investiga-a-condicao-humana-atraves-de-si-mesmo/