ENSAIO 01 – TORTO ARADO EM 4 ATOS

ATO 1 

A ESPERANÇA DA POLIFONIA

Ainda não sei o que pensar desta leitura. Acabei de chegar a pouco mais da metade do livro… Mas não importa, este texto ainda é para falar de repertório. Ou vagalumes.

Desde antes de começar a lê-lo, entretanto, já sabia que Torto Arado foi publicado em 2018… Um sucesso de vendas, com mais de 1 milhão de cópias… Foi traduzido para o inglês, o espanhol, o francês, o italiano… Mandarim e grego. Ganhou o Prêmio Jabuti… O Prêmio Oceanos… É literatura brasileira contemporânea…

Na internet encontro críticas que exaltam, mas também algumas que são bem mais severas – e que fazem todo o sentido, confesso. Essas últimas me fazem imaginar que quem as fez, sonhou fosse possível colocar Guimarães, Graciliano, Marquez e João Cabral na mesma sala… Não precisa, né?

Na orelha do livro leio que é uma obra polifônica… E penso: Polifonia… A palavra não me é estranha. Na minha primeira busca, a IA responde:

Polifonia é a coexistência de múltiplas vozes ou melodias independentes e simultâneas – tanto na música, onde cria texturas complexas, como nas fugas de Bach – quanto na linguagem e literatura, explicada pelo conceito de Bakhtin – onde diferentes vozes e pontos de vista se entrelaçam em um mesmo texto ou discurso, sem que uma voz principal se sobreponha totalmente às outras, gerando um diálogo ou conflito de ideias… 

“As texturas complexas presentes nas fugas de Bach” não fazem sentido algum para mim, que não tive formação musical alguma. Mas fui até aonde deu: cheguei a uma performance e a uma orientação de como deveria ouvi-la para compreender o que é polifonia em Bach.

A performance:

Ficou mais fácil com A Orientação – que aconselhava:

Ouvindo a música, preste atenção em como o tema principal (melodia) é apresentado por uma “voz” (um registo do órgão) e, em seguida, repetido por outras vozes em momentos diferentes, sobrepondo-se e entrelaçando-se na complexa tecelagem a que o texto original se refere.

Uau, hein?

Bakhtin, entretanto, me pareceu mais familiar: a ideia de que há diferentes vozes no texto me parece muito óbvia. Aliás, no momento exato em que escrevo este texto, já cheguei à página 165 e ouvi a história pela boca de 2 narradoras… Saber que o livro tem três capítulos, me faz supor que haverá mais um narrador, já que o primeiro e o segundo são narrados pelas irmãs gêmeas: Bibiana e Belonísia. Mas quem narrará? Será Zeca, o pai? Será Severo, marido de Bibiana e presença forte na vida das irmãs? Nova busca na internet e desvendo o mistério: é Santa Rita Pescadeira…

Você não leu o livro, então não pode dizer, mas eu, que li pouco mais da metade dele, a este ponto já sei quem é Santa Rita Pescadeira, e então, decido parar de escrever este texto.

Não sei dizer se a leitura das próximas 100 páginas será demorada ou não… Caçar repertório é como caçar vagalumes.

Depois eu volto.

ATO

A INTUIÇÃO

Preciso confessar, queria muito ter gostado deste livro. Motivos não faltaram para que crescesse em mim este desejo: autor brasileiro, premiado internacionalmente, literatura contemporânea com foco nas coisas do Brasil, nas tradições, nas crenças, mas também nas mazelas históricas que apenas resvalam neles nos livros de história e geografia do nosso país, quer sejam: a desigualdade, a desumanidade, o desrespeito, a injustiça, a deslealdade… Queria muito poder ter um mãos um livro que falasse de tudo aquilo que um jovem de 17, 18 anos está acostumado a ouvir, mas de um jeito diferente, tendo a oportunidade de sentir-se na pele do personagem, entrando nas lutas dele, tombando os seus demônios, sorrindo com os seus prazeres… Pois o que mais faz um escritor, senão promover este encontro, este movimento incontido e simbiótico com seu leitor?

É claro que os livros não são iguais e a gente pode ter motivos variados para gostar de um ou de outro. Mas o personagem, ora, o personagem, este precisa ser bom. Afinal, é ele quem move a história.

Pobres personagens de Torto Arado… Perderam-se todos, um a um… E por quê? Porque o autor não entendeu que cada personagem precisava de uma cena, apenas isso. Um exemplo? O gosto do sangue na boca de Belonísia não era o mesmo do da boca de Bibiana – mesmo que elas estivessem na mesma cena.

Ironicamente, a voz do autor misturou-se com a voz de cada um de seus personagens. Pouco a pouco, as vozes das personagens foram sendo dessensibilizadas, caricaturadas, simplificadas, estereotipadas. Para falar a verdade, em “Rio de sangue” – última parte do livro – a voz da personagem está irreconhecível; o que, a esse ponto, é decepcionante.

Eu cheguei a escrever sobre essa minha expectativa com a personagem da última parte do livro. Queria aprender sobre os encantados do Jarê, entrar neste mundo, desmistificar – e fiquei me imaginando sobre as possibilidades de estudo sobre estes temas às vezes tão delicados – a crença, a religião, a tradição.

Só que… Leitores não são confiáveis. E eu, como uma leitora que bem cumpre o seu papel, a esse ponto não podia mais me furtar do direito de ler as críticas…

De toda forma, vale a leitura – para falar de dramaturgia, para falar de literatura, para falar da importância da pesquisa, da argumentação e, claro, da criatividade.

ATO 3

O QUE FAZER COM AS CRÍTICAS?

O que fazer com as críticas?

Sinceramente, acho que devemos lê-las, mas no tempo certo. É que há todo um movimento do leitor envolvido na leitura de um livro que não pode ser negligenciado. Trata-se de uma proatividade que não se iguala a nada neste mundo, pois que é responsável por tirar as pessoas do seu lugar, da sua rotina. Acontece toda vez que se decide ir ao site de compra de um livro (digital ou físico), à uma biblioteca, à uma livraria… É um movimento gigante, se você for pensar e que, às vezes, até envolve pedir emprestado o livro de alguém…

Ler uma crítica antes de ler o livro é uma decisão íntima, modulada pelo tempo e pela intensidade. Em outras palavras, penso que a leitura de uma crítica não deva abortar o movimento da leitura, mas estimulá-la. É preciso sensibilidade para saber o momento de ler críticas.

Eu fui cautelosa. Sempre sou… Cheguei ao livro empolgada, curiosa. E quando já estava dando os meus pitacos a respeito do livro, ouvi uma crítica forte, confiável, mas lacônica… Do tipo: “o livro pode não ser tudo isso”…

Me intrigou, mas só isso. Decidi prosseguir a leitura e tirar as minhas conclusões. Só que, ao chegar na terceira parte do livro, algo começou a acontecer. Foi então que comecei a ler as críticas:

  1. Elogio a Torto Arado: uma literatura reencantada da realidade – Le Monde Diplomatique
  2. https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/desconstruindo-torto-arado-critica-estrutural-das-suas-fragilidades-e-defeitos-617600

Elas me levaram a dois lugares: o da curiosidade e interesse por algo que era novo para mim, mas também ao território do aprofundamento e criação de repertório.

Foi o que ocorreu, por exemplo, ao ler sobre a capa do livro, sobre a fotografia Giovanni Marrozzini e sobre o Jarê:

capa do livro “Torto Arado” foi ilustrada por Linoca Souza, que utilizou uma pintura do fotógrafo italiano Giovanni Marrozzini. A ilustração traz elementos de uma série realizada em Camarões e substitui objetos cortantes por folhas de espada de Santa Bárbara, refletindo a cultura e a história do livro. O livro, escrito por Itamar Vieira Junior, narra a vida das irmãs Bibiana e Belonísia em uma comunidade quilombola, abordando temas de opressão e resistência.

Fotografia do italiano Giovanni Marrozzini que inspirou a ilustração da capa de Torto Arado, de Linoca Souza. A foto faz parte da série Nuovelle semence (2010), realizada em Camarões:

3. Fotografia d’Autore: Giovanni Marrozzini | FBN Cecina

O Jarê é uma prática religiosa de matriz africana presente exclusivamente na região da Chapada Diamantina, região central do estado brasileiro da Bahia, notadamente entre os descendentes de africanos da região de Lençóis.

4. https://pt.wikipedia.org/wiki/Jar%C3%AA

ATO 4

INTUIÇÃO TEM NOME

Neste ponto, por ser autodidata em muitas coisas, especialmente na escrita, me sinto muito à vontade com a minha ignorância e não a nego. Não conhecia os termos, mas, depois que os conheci, meus olhos brilharam! Estava nisso a razão pela qual adorava Garcia Marquez!

É que o exemplo utilizado para explicar os termos é justamente retirado do livro O amor em tempos de Cólera, de Gabriel Garcia Marquez – mas eu aposto que também há exemplos Mia Couto!

A forma como o narrador deste livro coloca o personagem no tempo e no espaço é sensacional. Acho que teria sido ótimo que os personagens do livro Torto arado também tivessem tido este tratamento…

Mas é bom que se diga: em torto Arado, intuição tem nome, “Prolepse e Analepse”.

5. O que é Prolepse, Analepse, Flashforward e Flashback na literatura

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